Revista Literária

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A calcinha


            Sentei atrás de uma mulher, nem mesmo me dei o trabalho de olhar em seus olhos. Abri um livro que nem comecei, pois a calça jeans que estava tomando conta de meu olhar revelou uma calcinha bege, que insistia em fugir e mostrar todo o cobertor de intimidades da janela dos fundos.
            Lúcia, resolvi chamá-la de Lúcia, não a mulher, mas sim a calcinha. Fiquei olhando fixamente para ela. Com o tempo, fui tornando-me íntimo de sua intimidade, conheci seus olhos, nariz, bochechas e boca. Sorri, finalmente. Vi sua língua roçando levemente pelos lábios, espantei-me com ousadia tão precoce, e resolvi perguntar:

            - Está tudo bem?
            - Ótimo- respondeu debochada
            - Ninguém nunca me olhou tão atentamente, sempre já querem me por no chão e acabo perdendo tudo- continuou
            - Coitados, não sabem o que estão perdendo(...)
            - Você é gay? O melhor que eu tenho está dentro de mim, tão profundo que nem consigo ver – Interrompeu-me
            - Sim, acredito. Toda pessoa que se preze deve possuir o interior melhor que o exterior. Eu dou muito valor ao sentimento e não ao físico, sabe?
            - Sei, homens(...)

Um silêncio ensurdecedor. Eu ia dizer alguma coisa, mas me retorcia , mil ideias iam e viam na minha cabeça, enquanto que Lúcia seguia olhando-me, como se me desse um desafio.
           
-       É difícil encontrar uma mulher como você, inteligente, educada, bonita. Não é apegada a essas coisas chatas de moda(...)
-       Você está dizendo que me visto mal? Não escolhi ser assim, ok? Os homens sempre querem as pretas pequeninhas ,ou as vermelhas de renda. No strip, sempre há um torcida de nariz quando finalmente apareço. Saiba você, que eu estou aqui para tudo.
-       Não, claro que não, você é perfeita, é isso mesmo que eu quero, uma companheira para todas as horas. Estou muito sozinho.

Nesse momento, Lúcia desapareceu em meio a calça jeans e foi embora.

Lúcia foi o grande amor da minha vida.
           
           

2 comentários:

  1. Até objetos, seres inanimados nos levam a refletir e viajar nos pensamentos.
    Gostei!

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