Revista Literária

sábado, 29 de setembro de 2012

Boca


Quando parece que o silêncio grita, ela fala em um tom leve. Sorri pelo acaso.


A garganta consumia toda a necessidade de expressar o que aqueles lábios rachados deixavam escapar. O frio era insuportável. Conseguia ouvir os nossos dentes baterem como em uma orquestra.

 “Quer entrar?” Toda aquela parafernália de perguntas que ninguém quer saber as respostas, deu lugar a uma tão simples e necessária.

Vinho tinto e seco. Sentamos na sala. Longe um do outro. O silêncio tomava conta daquela situação. Eu olhava atentamente à boca dela, para ver quando ela ia dizer alguma coisa.

Via lábios rosados, suaves, aflitos e interessados no sabor daquela bebida que os deixava cada vez mais lindos. A dança que a taça realizava com todas aquelas rachaduras pintadas de tinto em sua boca, deixava-me totalmente reduzido a mero espectador daquela beleza.

O teor de honestidade que já tinham saído de toda a garrafa fizeram com que os incisivos rissem sorrateiramente, e eu percebi que ela gostou do encontro, da pergunta, do vinho e de mim. Naturalmente, estávamos próximos mais uma vez, sem falar nada. Dissemos um beijo.

domingo, 19 de agosto de 2012

Nariz


Caminho pelo centro, e o olfato me aponta uma direção . Abro e fecho os olhos. Nada muda. A multidão se mistura dentro de teu cheiro. Perdido. Sinto que nos perdemos para sempre.

Este pensamento é tão rotineiro quanto um estalar de dedos. Inspiro-me por momentos, expiro por adeus, sem palavras. Amo as fragrâncias por segundos que duram até a passagem de qualquer ônibus.

O sofrimento de um cego é não saber  para onde cheirar. A suavidade do balançar de cabelos me apaixona ao ponto de segui-los até onde os deficientes  podem enxergar. Choro por apenas uma sensação.

Não sei quem são e como devem ser, porém os amo como uma abelha à flor em tempos de primavera. Nem mesmo tenho ideia se são homens, ou mulheres. O amor não deve ter sexo, nem rosto, nem corpo, ou qualquer forma. O amor deve ser apenas uma sensação no escuro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Olhos


Não sei exatamente porque, mas acordei no meio da sala. As pessoas falavam sem parar, eu não entendia nada, e nem fazia muita questão de entender. Não conseguiria voltar a dormir, não conseguiria relaxar deitada, nem muito menos levantar para pegar um copo de água.
Tive que me dar por si. Foi a reflexão mais sábia da minha vida. Estava acostada em uma perna, que cordialmente, servia-me de travesseiro. Virei e vi um fundo branco, misturado com um negro perdido, mas que em mim havia se encontrado. Durante alguns minutos, aquele encontro pareceu eterno.
Começamos a conversar, mas ele nem falava o que dizia, nem eu ouvia aquelas palavras. A estaticidade daquele momento fez o branco, cada vez mais negro brilhar desfocando qualquer pensamento, que não fosse o fluxo do desejo desenfreado por um beijo.
Naquele instante, não havia nem mais a sala. Tudo era novo, constituído apenas de nosso olhar. Tenho certeza, que fizemos uma casinha na praia, só um banheiro, cozinha, e uma cama, onde ainda hei de fechar os olhos. 

domingo, 17 de junho de 2012

Mãos


   Naquele momento tive a sensação que suas mãos tinham ido embora. Ansiei por voltar à uma hora atrás. Observar o detalhe da sua unha metodicamente bem feita, combinando com a delicadeza dos seus dedos metricamente incorporados ao soneto que é a tua mão.
          
  Triste, sorri, quando lembrei dos carinhos lentos que eriçavam os meus pêlos. Nunca imaginei perder a suavidade de ter sua palma com a minha. Aquele desenho infinito, que não pude desvendar a maneira de guardar.
         
  Fecho os olhos e vejo o adeus de longe. Enquanto uma mão, já cansada, em sua cintura, parecia não querer mostrar-se nunca mais, a outra, com pena, balançava-se em tom de despedida melancólica, ritmando o meu coração a batidas lentas, que soavam o sofrimento de saber que aquela poesia jamais aumentaria seu ritmo outra vez. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Entregue



Teu corpo
É o sacrilégio da minha existência,
O final da beleza do romantismo,
O epitáfio da minha racionalidade.

O princípio de tuas pernas em minhas mãos firmes
subindo e eriçando cada pelo
descorado de tua coxa dourada,
que se derrete com meu anular bandido
dando passagem ao indicador para o que é o meio,
entrar devagar e inteiro

Minha boca vai ao teu pescoço buscar aquele cheiro.
Vontade de continuar sem parar,
recíproca revelada pelo arrepio e suspiro à minha chegada

Detalhadamente tiro cada peca.
Por último está a molhada.
Respiro-a, beijo e vejo teu sorriso receptivo.
Que mal sabe o tão longe que irei chegar

Nunca o sul esteve tão quente e úmido,
ajudei com gelo, que quase evaporou em minha boca seca.
Suas unhas arrancavam minhas costas:
Gritei de macho, como quem diz a fêmea que não ira parar

Ora ou outra subia ate tua barriga e costas,
Mordia cada sinal que via.
Às vezes volto à perna e subo com mais,
para que não se deixe escapar

Desta mulher,
de peitos firmes,
pernas duras,
bunda linear,
que se desabrocham com minha língua,
enfraquecem com meu sorriso.
Perco o caminho de casa,
pois dentro dela sou meu lar

Finalmente nos agarramos
em fúria,
Sem dor .
Só paixão,verdade,desejo,tesão,liberdade(...)

Os olhos castanhos,
A rachadura no lábio inferior,

Caricias leve em teu cabelo
Despontam os cachos,
Ora claros,ora escuros.

Revelo-te o prazer de te
amar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Reminiscência

O homem mais lindo do mundo, mais sensível, mais inteligente, aquele que superou minhas próprias expectativas afundou-se. Sem nem ser capaz de me chamar para o náufrago. Deixou-me afogar no meu rio de lágrimas chamado adeus.

Por que você não volta? A comida está na mesa, eu deitada na cama pronta para te dar na boca. Deixo ali somente a salada, porque tenho medo que o resto apodreça junto com minha solidão. Os talhares modelam-se a minha mão, pois têm pena da minha necessidade de comer. Parece que esperar o retorno daquele que talvez nunca esteve estará eternamente em meus sonhos.

A lembrança vive em meio ao cemitério de novidades iguais. As notícias não me chocam. Congelam-me sobre a cama, coberta pelo lençol desprezo. Penso. Resta-me somente divagar sobre o que você acharia de tudo isso, Uma porcaria, o amor é um chiqueiro. Sou uma porca, e você? Provavelmente o Fazendeiro.

O tempo não mudou nada com relação ao presente. Se fosse tudo igual, meu amado, eu o viveria mais cem vezes. Como eu queria te ligar e dizer que ainda te amo, mas não posso, não é possível, não pode ser. Digam-lhe que sofro muito, que já pensei em homicídio e até suicídio, no entanto não se esqueçam de dizer também que eu ainda o amo,venero, idolatro, que sou apaixonada. Peço- lhes, finalmente, que não ousem jamais me contar que ele não quer saber. Prefiro a realidade morta, a uma lembrança viva.

O mundo não se cansa de falar, porém não me diz nada. Quando encontro a palavra, ela simplesmente foge do dicionário. Descubro o meu verbete, mudam a ortografia. Volta, hífen! Acho que é pedir demais para ele nossa aglutinação

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Liberdade e Putrefação


“(Urubuservando, a situação:
uma carraspana, na putrefação;
a lama chega até o meio da canela;
o mangue tá afundando e não nos dá mais trela!)” Chico Science


Não sou muito de crônicas policias não, mas é o que tem para hoje. Sendo você um morador do estado do Rio de Janeiro é impossível não estar atento ao fato de que alguns órgãos de segurança pública estão em greve, e não há melhor lugar para nós darmos nosso pitaco positivo ou negativo com relação a este fato que no nosso querido e tão usado Facebook.

A rede social mais utilizada no mundo nos permite expor o que pensamos, sem o menor pudor e com total liberdade, ótimo, não? Maio de 68! Governo de Allende! Tropicalismo! Doce ilusão comunista, meus caros. O ser humano ganhou um muro online para por o que lhe convém. No começo tudo foi bem calculado, mas com o tempo desandou, né? Da mesma maneira que um rato sai do buraco atrás de um queijo, no princípio ele pega um pequeno pedaço, depois outro, no dia seguinte chama outro rato, após uma semana não haverá mais queijo, somente ratos e o que eles farão sem comida?

E aí, meus mesmos caros que sorriram com a total liberdade e o fim do pudor me dizem que a polícia deve ficar em greve para sempre, como assim? Antes de qualquer coisa quero deixar bem claro que esse era um dos meus sonhos para uma sociedade perfeita, mas eu, no parágrafo anterior acabei de nos comparar com ratos e você provavelmente não se indispôs.

É duro, mas vamos um pouco à minha: imagine se um dia fosse decretado o toque de liberdade por uma semana a todos os terráqueos, ou melhor, imagine que começaria segunda-feira agora. No primeiro dia, a maioria das pessoas tentaria levar sua vida de forma normal, afinal todos nós somos livres, certo? Nada mudaria, até o momento que um resolver abusar da liberdade e faltar o trabalho para ir à praia, a loja não é dele, o chefe o trata como lixo, e já que tudo está permitido nada melhor que ir à praia, chegando lá aquele trabalhador percebe que boa parte dos barraqueiros tomou a mesma atitude que ele, e num ato de nervosismo diz que todos são vagabundos, quando de repente, a mãe de um dos garçons faltosos ouve, não gosta do comentário e lhe joga na cara a cerveja que ele tanto queria tomar. Uns banhistas tomam as dores da senhora, outros do rapaz e como em um passe de mágica se instaura ali uma briga de proporção grandíssima e simplesmente não há ninguém para coibir. Impossível demais? Crê realmente mais palpável que todos vivam em paz, e que tudo ocorra belamente? Ou simplesmente, você é um radical e quer que Darwin se corroa todo e veja uma seleção natural anarquista: só os mais fortes sobrevivem e conseguem se adaptar ao novo sistema? Eu quero muito acreditar que essa última foi uma proposta didática e que nunca passou pela cabeça de ninguém.

Os outros dias da “semana de liberdade” seriam basicamente como o primeiro; no segundo dia, os chefes arranjariam uma maneira de colocar os empregados para trabalhar, dar-lhes-iam armas para se defender das pessoas que finalmente teriam a chance de ter um Iphone ou uma camisa da Lacoste, os empregados iriam acabar vendo que eram superiores numericamente aos seus patrões, e na melhor das hipóteses prenderiam seus chefes, estaria promovida a vitória da classe oprimida! Até o momento que um da classe trabalhadora cansasse do espírito de grupo e lembrasse que se ele tivesse mais armas poderia vencer todos aqueles que eram aliados; no terceiro dia os sobreviventes lamentariam todo aquele caos, iriam procurar a fé,mas até mesmo os religiosos podiam tudo nessa semana, no quarto dia descrentes de tudo, tentariam estabelecer um diálogo entres eles,mas possivelmente não entrariam em acordo e acabariam se matando, no quinto dia, bom não haveriam nem quinto dia.

A capacidade autodestrutiva do ser humano em se relacionar é impressionante. Mas, então, o que eu proponho? Alienação? Deixar como estar? Claro que não! Proponho que busquemos nossas utopias possíveis, devemos lutar por educação crítica e de qualidade para que possamos entender que podemos nos autogerir, sem polícia, sem políticos, sem qualquer órgão repressor. Primeiro pensamos, depois caminhamos e logo em seguida damos uma corrida em busca da nossa salvação, pois nesse ritmo nem precisaremos de aquecimento global.

Eu sou apaixonado pelo ser humano, pela sua criatividade, diversidade, e até mesmo por esse dom de querer se foder, nem por isso preciso curtir a lama que suja nossos joelhos, nem muito menos compartilhar a putrefação que colore nosso convívio social, não pretendo me suicidar, e por isso sonho que um dia seja no mínimo diferente.