Revista Literária

domingo, 21 de outubro de 2012

Ouvidos


-Cale-se! Cansei de ouvir esse amontoado de mentiras. Poupe-me de seu esforço ridículo em tentar me enganar, com estas palavras que você nem sabe o que significam. Não ignore o que te toca, pois jamais nada te atingirá desta maneira outra vez.
           
Naquele momento, tive a certeza do tamanho da solidão que me assolava.

            Sou extremamente ínfimo. Refém das frases certas, do cumprimento de expectativas criadas pelo medo fodido de não ficar só. Apenas um, com algumas perguntas, diante de uma infinidade de sins, nãos, mas e poréns. Por mais que se chegue nesta conclusão, quem quer ficar falando sozinho?
            Os relacionamentos são destrutivos por si só, é extremamente ilógico, imaginar que para ser feliz, você precisa ser ouvido ou compreendido. A loucura é apenas uma linguagem que as pessoas não pararam para ouvir, ou que ainda não foram capazes de entender. Quem não quer um pouco de atenção em sua pirueta altista?
           Descobri o quanto quero que o mundo se cale para você contar nossos planos, escutar seus gemidos de amor cigano, o choro com minhas poesias, o berro de nossa filha nascendo, e finalmente me dizer o quanto seremos felizes lado a lado, rindo, chorando, sofrendo alegremente o penar de querer ouvir um te amo, mais do que qualquer outro.

Meu amor,     
Há alguns anos, desisti de tentar fazer com que o mundo me escute. Só não ache que os ouvidos da Terra são mais importantes que o seu. 

sábado, 29 de setembro de 2012

Boca


Quando parece que o silêncio grita, ela fala em um tom leve. Sorri pelo acaso.


A garganta consumia toda a necessidade de expressar o que aqueles lábios rachados deixavam escapar. O frio era insuportável. Conseguia ouvir os nossos dentes baterem como em uma orquestra.

 “Quer entrar?” Toda aquela parafernália de perguntas que ninguém quer saber as respostas, deu lugar a uma tão simples e necessária.

Vinho tinto e seco. Sentamos na sala. Longe um do outro. O silêncio tomava conta daquela situação. Eu olhava atentamente à boca dela, para ver quando ela ia dizer alguma coisa.

Via lábios rosados, suaves, aflitos e interessados no sabor daquela bebida que os deixava cada vez mais lindos. A dança que a taça realizava com todas aquelas rachaduras pintadas de tinto em sua boca, deixava-me totalmente reduzido a mero espectador daquela beleza.

O teor de honestidade que já tinham saído de toda a garrafa fizeram com que os incisivos rissem sorrateiramente, e eu percebi que ela gostou do encontro, da pergunta, do vinho e de mim. Naturalmente, estávamos próximos mais uma vez, sem falar nada. Dissemos um beijo.

domingo, 19 de agosto de 2012

Nariz


Caminho pelo centro, e o olfato me aponta uma direção . Abro e fecho os olhos. Nada muda. A multidão se mistura dentro de teu cheiro. Perdido. Sinto que nos perdemos para sempre.

Este pensamento é tão rotineiro quanto um estalar de dedos. Inspiro-me por momentos, expiro por adeus, sem palavras. Amo as fragrâncias por segundos que duram até a passagem de qualquer ônibus.

O sofrimento de um cego é não saber  para onde cheirar. A suavidade do balançar de cabelos me apaixona ao ponto de segui-los até onde os deficientes  podem enxergar. Choro por apenas uma sensação.

Não sei quem são e como devem ser, porém os amo como uma abelha à flor em tempos de primavera. Nem mesmo tenho ideia se são homens, ou mulheres. O amor não deve ter sexo, nem rosto, nem corpo, ou qualquer forma. O amor deve ser apenas uma sensação no escuro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Olhos


Não sei exatamente porque, mas acordei no meio da sala. As pessoas falavam sem parar, eu não entendia nada, e nem fazia muita questão de entender. Não conseguiria voltar a dormir, não conseguiria relaxar deitada, nem muito menos levantar para pegar um copo de água.
Tive que me dar por si. Foi a reflexão mais sábia da minha vida. Estava acostada em uma perna, que cordialmente, servia-me de travesseiro. Virei e vi um fundo branco, misturado com um negro perdido, mas que em mim havia se encontrado. Durante alguns minutos, aquele encontro pareceu eterno.
Começamos a conversar, mas ele nem falava o que dizia, nem eu ouvia aquelas palavras. A estaticidade daquele momento fez o branco, cada vez mais negro brilhar desfocando qualquer pensamento, que não fosse o fluxo do desejo desenfreado por um beijo.
Naquele instante, não havia nem mais a sala. Tudo era novo, constituído apenas de nosso olhar. Tenho certeza, que fizemos uma casinha na praia, só um banheiro, cozinha, e uma cama, onde ainda hei de fechar os olhos. 

domingo, 17 de junho de 2012

Mãos


   Naquele momento tive a sensação que suas mãos tinham ido embora. Ansiei por voltar à uma hora atrás. Observar o detalhe da sua unha metodicamente bem feita, combinando com a delicadeza dos seus dedos metricamente incorporados ao soneto que é a tua mão.
          
  Triste, sorri, quando lembrei dos carinhos lentos que eriçavam os meus pêlos. Nunca imaginei perder a suavidade de ter sua palma com a minha. Aquele desenho infinito, que não pude desvendar a maneira de guardar.
         
  Fecho os olhos e vejo o adeus de longe. Enquanto uma mão, já cansada, em sua cintura, parecia não querer mostrar-se nunca mais, a outra, com pena, balançava-se em tom de despedida melancólica, ritmando o meu coração a batidas lentas, que soavam o sofrimento de saber que aquela poesia jamais aumentaria seu ritmo outra vez. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Entregue



Teu corpo
É o sacrilégio da minha existência,
O final da beleza do romantismo,
O epitáfio da minha racionalidade.

O princípio de tuas pernas em minhas mãos firmes
subindo e eriçando cada pelo
descorado de tua coxa dourada,
que se derrete com meu anular bandido
dando passagem ao indicador para o que é o meio,
entrar devagar e inteiro

Minha boca vai ao teu pescoço buscar aquele cheiro.
Vontade de continuar sem parar,
recíproca revelada pelo arrepio e suspiro à minha chegada

Detalhadamente tiro cada peca.
Por último está a molhada.
Respiro-a, beijo e vejo teu sorriso receptivo.
Que mal sabe o tão longe que irei chegar

Nunca o sul esteve tão quente e úmido,
ajudei com gelo, que quase evaporou em minha boca seca.
Suas unhas arrancavam minhas costas:
Gritei de macho, como quem diz a fêmea que não ira parar

Ora ou outra subia ate tua barriga e costas,
Mordia cada sinal que via.
Às vezes volto à perna e subo com mais,
para que não se deixe escapar

Desta mulher,
de peitos firmes,
pernas duras,
bunda linear,
que se desabrocham com minha língua,
enfraquecem com meu sorriso.
Perco o caminho de casa,
pois dentro dela sou meu lar

Finalmente nos agarramos
em fúria,
Sem dor .
Só paixão,verdade,desejo,tesão,liberdade(...)

Os olhos castanhos,
A rachadura no lábio inferior,

Caricias leve em teu cabelo
Despontam os cachos,
Ora claros,ora escuros.

Revelo-te o prazer de te
amar.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Reminiscência

O homem mais lindo do mundo, mais sensível, mais inteligente, aquele que superou minhas próprias expectativas afundou-se. Sem nem ser capaz de me chamar para o náufrago. Deixou-me afogar no meu rio de lágrimas chamado adeus.

Por que você não volta? A comida está na mesa, eu deitada na cama pronta para te dar na boca. Deixo ali somente a salada, porque tenho medo que o resto apodreça junto com minha solidão. Os talhares modelam-se a minha mão, pois têm pena da minha necessidade de comer. Parece que esperar o retorno daquele que talvez nunca esteve estará eternamente em meus sonhos.

A lembrança vive em meio ao cemitério de novidades iguais. As notícias não me chocam. Congelam-me sobre a cama, coberta pelo lençol desprezo. Penso. Resta-me somente divagar sobre o que você acharia de tudo isso, Uma porcaria, o amor é um chiqueiro. Sou uma porca, e você? Provavelmente o Fazendeiro.

O tempo não mudou nada com relação ao presente. Se fosse tudo igual, meu amado, eu o viveria mais cem vezes. Como eu queria te ligar e dizer que ainda te amo, mas não posso, não é possível, não pode ser. Digam-lhe que sofro muito, que já pensei em homicídio e até suicídio, no entanto não se esqueçam de dizer também que eu ainda o amo,venero, idolatro, que sou apaixonada. Peço- lhes, finalmente, que não ousem jamais me contar que ele não quer saber. Prefiro a realidade morta, a uma lembrança viva.

O mundo não se cansa de falar, porém não me diz nada. Quando encontro a palavra, ela simplesmente foge do dicionário. Descubro o meu verbete, mudam a ortografia. Volta, hífen! Acho que é pedir demais para ele nossa aglutinação