Revista Literária

sexta-feira, 2 de março de 2012

Reminiscência

O homem mais lindo do mundo, mais sensível, mais inteligente, aquele que superou minhas próprias expectativas afundou-se. Sem nem ser capaz de me chamar para o náufrago. Deixou-me afogar no meu rio de lágrimas chamado adeus.

Por que você não volta? A comida está na mesa, eu deitada na cama pronta para te dar na boca. Deixo ali somente a salada, porque tenho medo que o resto apodreça junto com minha solidão. Os talhares modelam-se a minha mão, pois têm pena da minha necessidade de comer. Parece que esperar o retorno daquele que talvez nunca esteve estará eternamente em meus sonhos.

A lembrança vive em meio ao cemitério de novidades iguais. As notícias não me chocam. Congelam-me sobre a cama, coberta pelo lençol desprezo. Penso. Resta-me somente divagar sobre o que você acharia de tudo isso, Uma porcaria, o amor é um chiqueiro. Sou uma porca, e você? Provavelmente o Fazendeiro.

O tempo não mudou nada com relação ao presente. Se fosse tudo igual, meu amado, eu o viveria mais cem vezes. Como eu queria te ligar e dizer que ainda te amo, mas não posso, não é possível, não pode ser. Digam-lhe que sofro muito, que já pensei em homicídio e até suicídio, no entanto não se esqueçam de dizer também que eu ainda o amo,venero, idolatro, que sou apaixonada. Peço- lhes, finalmente, que não ousem jamais me contar que ele não quer saber. Prefiro a realidade morta, a uma lembrança viva.

O mundo não se cansa de falar, porém não me diz nada. Quando encontro a palavra, ela simplesmente foge do dicionário. Descubro o meu verbete, mudam a ortografia. Volta, hífen! Acho que é pedir demais para ele nossa aglutinação

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Liberdade e Putrefação


“(Urubuservando, a situação:
uma carraspana, na putrefação;
a lama chega até o meio da canela;
o mangue tá afundando e não nos dá mais trela!)” Chico Science


Não sou muito de crônicas policias não, mas é o que tem para hoje. Sendo você um morador do estado do Rio de Janeiro é impossível não estar atento ao fato de que alguns órgãos de segurança pública estão em greve, e não há melhor lugar para nós darmos nosso pitaco positivo ou negativo com relação a este fato que no nosso querido e tão usado Facebook.

A rede social mais utilizada no mundo nos permite expor o que pensamos, sem o menor pudor e com total liberdade, ótimo, não? Maio de 68! Governo de Allende! Tropicalismo! Doce ilusão comunista, meus caros. O ser humano ganhou um muro online para por o que lhe convém. No começo tudo foi bem calculado, mas com o tempo desandou, né? Da mesma maneira que um rato sai do buraco atrás de um queijo, no princípio ele pega um pequeno pedaço, depois outro, no dia seguinte chama outro rato, após uma semana não haverá mais queijo, somente ratos e o que eles farão sem comida?

E aí, meus mesmos caros que sorriram com a total liberdade e o fim do pudor me dizem que a polícia deve ficar em greve para sempre, como assim? Antes de qualquer coisa quero deixar bem claro que esse era um dos meus sonhos para uma sociedade perfeita, mas eu, no parágrafo anterior acabei de nos comparar com ratos e você provavelmente não se indispôs.

É duro, mas vamos um pouco à minha: imagine se um dia fosse decretado o toque de liberdade por uma semana a todos os terráqueos, ou melhor, imagine que começaria segunda-feira agora. No primeiro dia, a maioria das pessoas tentaria levar sua vida de forma normal, afinal todos nós somos livres, certo? Nada mudaria, até o momento que um resolver abusar da liberdade e faltar o trabalho para ir à praia, a loja não é dele, o chefe o trata como lixo, e já que tudo está permitido nada melhor que ir à praia, chegando lá aquele trabalhador percebe que boa parte dos barraqueiros tomou a mesma atitude que ele, e num ato de nervosismo diz que todos são vagabundos, quando de repente, a mãe de um dos garçons faltosos ouve, não gosta do comentário e lhe joga na cara a cerveja que ele tanto queria tomar. Uns banhistas tomam as dores da senhora, outros do rapaz e como em um passe de mágica se instaura ali uma briga de proporção grandíssima e simplesmente não há ninguém para coibir. Impossível demais? Crê realmente mais palpável que todos vivam em paz, e que tudo ocorra belamente? Ou simplesmente, você é um radical e quer que Darwin se corroa todo e veja uma seleção natural anarquista: só os mais fortes sobrevivem e conseguem se adaptar ao novo sistema? Eu quero muito acreditar que essa última foi uma proposta didática e que nunca passou pela cabeça de ninguém.

Os outros dias da “semana de liberdade” seriam basicamente como o primeiro; no segundo dia, os chefes arranjariam uma maneira de colocar os empregados para trabalhar, dar-lhes-iam armas para se defender das pessoas que finalmente teriam a chance de ter um Iphone ou uma camisa da Lacoste, os empregados iriam acabar vendo que eram superiores numericamente aos seus patrões, e na melhor das hipóteses prenderiam seus chefes, estaria promovida a vitória da classe oprimida! Até o momento que um da classe trabalhadora cansasse do espírito de grupo e lembrasse que se ele tivesse mais armas poderia vencer todos aqueles que eram aliados; no terceiro dia os sobreviventes lamentariam todo aquele caos, iriam procurar a fé,mas até mesmo os religiosos podiam tudo nessa semana, no quarto dia descrentes de tudo, tentariam estabelecer um diálogo entres eles,mas possivelmente não entrariam em acordo e acabariam se matando, no quinto dia, bom não haveriam nem quinto dia.

A capacidade autodestrutiva do ser humano em se relacionar é impressionante. Mas, então, o que eu proponho? Alienação? Deixar como estar? Claro que não! Proponho que busquemos nossas utopias possíveis, devemos lutar por educação crítica e de qualidade para que possamos entender que podemos nos autogerir, sem polícia, sem políticos, sem qualquer órgão repressor. Primeiro pensamos, depois caminhamos e logo em seguida damos uma corrida em busca da nossa salvação, pois nesse ritmo nem precisaremos de aquecimento global.

Eu sou apaixonado pelo ser humano, pela sua criatividade, diversidade, e até mesmo por esse dom de querer se foder, nem por isso preciso curtir a lama que suja nossos joelhos, nem muito menos compartilhar a putrefação que colore nosso convívio social, não pretendo me suicidar, e por isso sonho que um dia seja no mínimo diferente.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Coube?

Vejo-a triste
Não sei bem o motivo
Mas compadeço-me
Com tua solidão descoberta

Não há receita para o amor
O amor é amar
Olhar ao lado e estar sendo olhado.
Ninguém a vê

A estabilidade desequilibra tuas pernas
Não cai pelos empurrões vacilantes
Das risadas cobertas de um pouco mais que nada

A porta está entreaberta
Dar-te-ei minhas mãos calejadas
Às tuas unhas feitas
E verei teu sorriso de nunca

Cabe a Deus,
Por linhas tortas
Permitir que eu ame
A mais bela
De suas criações

Cabe as sete ondas que pularei,
As roupas íntimas que usará
A Yemanjá agarrar nossas flores
E revelar no céu uma só estrela

Cabe a mim ser a poesia
Que lerá todo dia
Entre as nuvens
Buscarei a mesma luz que estará olhando

Cabe a ti ser a alegria
Que me falta nos domingos sangrentos
Sem letras, cartas e palavras
Nem mesmo idéia para um poeminha

Caberá ao tempo
Não demorar
A nos encontrar
Presenteando-nos com um novo amor
Nesta nova temporada.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Transformação

Em cada despedida, um bom dia. A novidade premeditada pela curiosidade fulmina-se em toque, beijo, desejo. Acalme-se dia, ainda prefiro a noite e é melhor esse maldito sol não nascer. Entardeça outra vez em silêncio.

O mundo parecia rir da minha vontade de ficar sentada. E eu dava risada do planeta por ser tão apressado. Quem seria a Terra se não fôssemos nós? O Planeta Água. Bebemos e acabamos contigo. E você quer que eu saia da cama? Quero a liberdade de decidir a hora que eu vou abrir o olho.

Sonho porque lá sou amada. Enquanto a realidade cabe a Deus.Meu real acompanhado e feliz. Triste é viver, só e com solidão. Jardim, praia, cama,cinema ,parque, cada dia estamos em um lugar, enquanto a vida só me encaminha em avenidas. Eu olho e só vejo sorriso. Eu olho e só vejo desperdício.

Quando estaremos juntos? Posso desenhar em quinhentos papéis o contorno das suas mãos, as linhas das suas palmas, o pequeno corte no seu indicador esquerdo. O encaixe dos nossos dedos, meu anel se depara com o vazio do seu anelar. As caricias, os beijos nas unhas e o desejo ali contido, quando encontramos com as nossas pernas sorrimos e nos desvencilhamos para a realidade do meu despertar.

Os dias, as horas e os minutos que foram levando minha idade avançarem me transformaram em uma ameaça a mim mesma. Dentes, pêlos, gordura, menstruação e toda uma aberração de feminilidade excessiva.

Não existe céu, não há nuvens, nem sol, e a lua aparece, quando queremos, para brilhar o protagonismo da perfeição de nós dois. Os abraços apertados que não doem, duram minutos mais preciosos que todo um colar de diamantes, carinho no cabelo deixando meu perfume exalar pelo ar, e aqueles beijos suaves no ombro desabrochando a tensão da realidade morta.

Acordo e acordo. Tomo banho e tomo banho. A monotonia de ganhar dinheiro para ser feliz e ser feliz. Enquanto o mundo buzina e grita e grita e buzina, eu canto comigo mesmo: “espere moreno, espero onde te deixei amor, volto mais tarde, minha vida,moreno é feita pra voar, quero as asas do teus(...) Contigo meu moreno à noite vou estar”

sábado, 29 de outubro de 2011

¡ Viva La Vida !



As cores do laço
são o fio condutor
até você

As cores da corda
são o fio da meada,
Cansei de te ver

As cores são as belezas
dos que eram brancos.
Negros caminhos

São como cadarços sujos
Sabão,lave,esfregue,torça(...)
Branco

Mais uma vez sozinho.
Escolherei:
Qual cor percorrer

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Bela e a Fera



Posso te ver e escutar, oferecer o que for, mesmo que queira não há como te dar (pareço muito educado), medimos as mãos, e até jogamos baralho. Vamos assim há mais de um ano. Geralmente é difícil, mas com a mesma freqüência acho que não agüentaria ficar muito perto de você.

Uma barreira nos separa. Ando até o fim para ver se há uma porta, mas não há nem começo. Resolvo sentar e desabafar, ontem foi meu 25º assassinato, você pobre cristã acredita, e se comove por eu não me agüentar, não sei o que acharia se te contasse que já perdi as contas da quantidade de sangue que já vi. Morro de medo que você vá embora.

Tenho lá minhas dúvidas se existe natureza humana, porém não há muito o que se questionar sobre a minha,evidente que possuo. Sanguinária, vingativa, racional, sem medo. O pior tipo de pesadelo que alguém pode pensar em ter. Sou biologicamente a destruição.

Respondo o que quiser afinal você é a única que me aceita como quase o que sou. Nada mais humano que te responder quase toda a verdade. Nada mais humano que fazer com que você se apaixone por mim, que me queira que me deseje. Nada mais animal que sentir o mesmo.

Quando sonho estamos juntos, você de branco e eu de preto, você sorrindo e eu sedento. Fazemos amor. Acordo. Corro para te ver, e lá está o seu sorriso eternamente sorriso. Quero abrir uma porta, usar minha força, gritar, lutar, matar, quebrar esse espelho sem reflexo que me separa de você.

domingo, 14 de agosto de 2011

Vidas


A solidão
Preenche meu corpo
Com ou sem cor
Dor

So-
Li-
Dão

Dor

Cor-
Po

Eram espaços
Que hoje são só,
Desenhos,frases,nomes.
Eu.

Linhas solitárias
Espalhados e sozinhos
Braço,perna,peito,mão
Minhas.

Somos dor
Solidão
Todos juntos em meu corpo
Tatuagem